quarta-feira, 4 de março de 2009

Pré-história do Som do Céu

por Aristeu Pires

Conheço um grande compositor da música cristã brasileira que abomina o título de dinossauro da música cristã. Na verdade acho o título até carinhoso e me senti lisonjeado quando participei de um sarau em São Paulo que recebeu o título de “Encontro de Dinos”. Nesse dia tive o privilégio de conhecer pessoalmente (antes conhecia só de ouvir) um dos pais da MPB cristã: o Wôlô.

Toda história tem sua pré-história, assim como o nascimento tem o pré-natal, a escola tem o pré-primário ou o pré-vestibular; até o petróleo tem o pré-sal.

O Som do Céu não escapou
da regra e, aqueles que são jovens há mais tempo, irão se lembrar que todos os anos (na década de 70) um dos eventos mais esperados pelos participantes da MPC nos vários cantos do Brasil, era um acampamento especial realizado no período da Páscoa, no antigo acampamento à margem da Lagoa dos Ingleses. O nome do acampamento era ACAMPÁSCOA.

Lembro-me que na Páscoa de 1974 eu estava participando como equipante. Eu precisava um canto onde pudesse
ficar a sós com o violão, sem que alguém se aproximasse para cantar junto, enquanto tentava terminar de compor uma música. Consegui uma autorização para usar o apartamento destinado ao preletor do acampamento.

O apartamento ficava ao lado do refeitório e tinha uma janela que se abria para o cenário cinematográfico da lagoa, tendo ao fundo a imponência de montanhas cobertas de relva que pareciam proteger as águas. Era mais que um colírio para os olhos: clareava a capacidade de ver através do coração e perceber a mão do Criador com nitidez.

Eu estava tentando terminar a música “Vou Vivendo”, que estava pela metade. Enquanto trastejava no violão os acordes daquela música inacabada, brotou uma outra seqüência de acordes (também em sol menor) que tinha uma levada diferente daquela de “Vou Vivendo”, mais pra o lado do mambo. A partir daí surgiu uma melodia nova que precisei ficar repetindo várias vez
es porque era (ainda sou) analfabeto musical e não conseguia escrever a melodia; precisava decorar para não esquecer.

Enquanto eu repetia os acordes no violão e cantarolava a melodia, pude observar pela janela a passagem de um barco à vela próximo à margem do lago e nele um casal curtindo o passeio do feriado. O silêncio do barco deslizando sobre as águas do lago só era interrompido pelas gargalhadas do casal que parecia se divertir muito. Fiquei imaginando que eles estavam realmente vivendo um momento de alegria, descontração, tranqüilidade e paz; enfim, a felicidade! Mas, depois da primeira impressão, veio à memória o que estávamos lembrando naquela semana de Páscoa: que o Filho de Deus se fez gente como nós, viveu com como vivemos, sentiu as dores que sentimos e carregou todo o peso dos pecados que cometemos. Tudo isso para que tivéssemos v
ida em abundância, pela reconciliação com o Pai. Realmente, não era aquele cenário o caminho da verdadeira paz, sobre a qual Jesus disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Não vo-la dou como o mundo a dá, não se turbe nem se atemorize.” Foi aí que surgiu a música “De Vento Em Popa”.

O primeiro que veio conferir como ficou a música que estava sendo terminada foi o Marcelo Gualberto (na época mais conhecido como Xexéu).


Na verdade, no cenário que inspirou a música, o sol estava por cima, mas embaixo não estava o mar ... isso aí ficou por conta da imaginação e da licença poética, afinal, fica
ria um pouco estranho: “o sol por cima, embaixo o lago”. Só recentemente observei que, em boa parte das músicas que fiz, existem duas palavras com uma presença marcante: “mar” e “coração”; mas isso é uma outra história.

Voltando à pré-história (e lá estavam os dinossauros), poucos anos depois disso o ACAMPÁSCOA foi transformado em Som do Céu e, de lá pra cá, escreveu páginas importante da história da música cristã no Brasil, deixando marcas permanentes nas águas do mar de muitas vidas e, certamente, no coração do Pai.

4 comentários:

Anônimo disse...

Muito legal a historia! Ficou bem escrito e empolgante!

Manassa disse...

O Som do Céu deste ano está maravilhoso, parabéns!!!
Pra festa ficar completa só falta o Leon Neto (ex-Canto D'alma), o Guilherme Kerr e o Adhemar de Campos.
Um abraço.
Angelo Manassés
(Recife/PE)

Anônimo disse...

Haha! Muito interessante saber a história por trás da música! Então o mar nem era mar? Que bacana! E saber que foi feita dentro da MPC! Muito legal mesmo! Espero encontrar o Aristeu lá no Som do Céu!

Aristeu disse...

fiquei emocionado ao ver a foto do "mar" dos Ingleses inclusive com os dois barcos. Se puderem me mandem essa foto porque não tenho nenhuma de lá.